terça-feira, 1 de setembro de 2009




– BEIJAR NA DESPEDIDA, BEIJAR NO REENCONTRO –
Sinopses de filmes inesquecíveis, com beijos inesquecíveis.

ROSANA DE ALMEIDA
Especial para o Site do Escritor
www.gazetainsonia.com

Dentro do clima invernal que temos vivido ultimamente, escolhi o filme Cold Mountain para resenhar, com beijos quentes e cenas tórridas, não aconselháveis a menores de 16 anos. Com Jude Law (Inman), Nicole Kidman (Ada Monroe) e a formidável Renée Zellweger (Ruby) ganhadora do Oscar de melhor atriz coadjuvante, uma das sete indicações ao Oscar que o filme recebeu em 2003. Direção de Anthony Minghela.
A história se passa num vilarejo ao sul da Carolina do Norte em 1864, durante a Guerra Civil. As lembranças de Inman, ferido durante a batalha, nos contam os acontecimentos de três anos atrás quando Ada Monroe chegou a Cold Mountain com o pai, um reverendo que escolheu ser transferido para o sul por problemas de saúde.
O flerte entre Ada e Inman começa quando ela e o pai visitam a construção da capela. Inman está construindo o telhado quando ela chega. Inicialmente como narradora, se apresenta como uma jovem inexperiente, aliviada por ter migrado do norte, uma região de escravos e espartilhos. Mas corajosa, ela manterá esta coragem até o fim, leva uma bandeja de refresco aos homens que estão trabalhando na capela, especificamente a Inman, o jovem quem a amiga Sally diz ansioso por conhecê-la e também aquele que Sally quer que limpe o seu campo. É uma cena cheia de sol e de uma paquera inquietante, típica de praças com coreto, em cidades do interior. O refresco para o calor dos olhares vem da sidra em fartura.
Outra cena decisiva para o enredo é a do sarau na casa do reverendo como forma de agradecimento aos moradores pela construção da capela. É nesta cena que ficamos sabendo que Inman se alistou e que Ada irá esperar por ele. Ada sugere ironicamente que Inman tire um retrato, uma ferrotípia com o mosquete e a coragem aparentes. Nesta também nos apresentam Teague, o neto do antigo proprietário de grande parte das terras da região e quem se incubirá pela caça aos desertores.
Muita gente protesta quando digo, e sei que muitas mensagens descontentes virão, que nos apaixonamos quando queremos e/ou precisamos nos apaixonar. E parece não haver ocasião mais propícia ao apaixonamento do que épocas de guerra. Ada precisava ter algo em mente que a distraísse das dores típicas de épocas de guerra, mesmo que acrescentasse uma outra, até maior.
Quando Ada vai se despedir de Inman dá a ele para que leve consigo um livro e uma ferrotípia. Nela não está sorrindo. “– Não sei manter um sorriso”. ela diz. Ela sentia dúvidas quanto a sua possibilidade de preservar seus valores e suas posses. Creio que se apaixonar era uma forma dela se sentir viva e com esperança, esperança de conseguir manter algo valioso e bom. Inman precisava igualmente se apaixonar. Precisava ter um vínculo forte que o mantivesse vivo no meio do caos da batalha. Ada precisava ter alguém por quem esperar. Inman precisava ter alguém para quem voltar. Para ambos era uma questão vital.
No contexto de Cold Mountain aparece uma vicissitude da espécie humana. Surpreendentemente, da mesma forma como precisam se apaixonar, precisam guerrear. E assim como não podemos saber todos os motivos inconscientes que levam uma pessoa a se apaixonar por outra, não é possível conhecer todos os motivos inconscientes implicados na necessidade da guerra. Uma forma de extravasar o ódio? Não creio ser esta a razão maior. Extravasar a loucura que corrói lentamente e torna-se insuportável em alguns períodos? Difícil precisar os motivos. Para os homens de Cold Mountain parecia haver uma questão de identidade, um sentimento de estarem “fora do mapa”. Quando foram convocados para a guerra civil passaram a se sentir reconhecidamente existindo e de valor. “ – Agora temos a nossa guerra!”. “ – Você já tem a sua guerra!”. Manifesta-se nestas frases a inveja que estava sendo amargada e uma ponta da loucura implícita.
A forma como estes homens se destacaram durante as batalhas manifesta a premência de se provarem seu valor e coragem, mas para Inman a guerra se tornava cada vez mais sem sentido. Sua razão maior era voltar a Cold Mountain e para um amor que ele mal conheceu.
Mas as mulheres que ficaram não tinham que lidar apenas com o abandono e a escassez da época. Havia a loucura dos que, por algum motivo, não foram e que para não se sentirem impotentes passam a abusar de um poder, de uma autoridade tirana, sádica e assassina. Difícil concluir o quê é pior: partir e extravasar a loucura em “campos destinados a batalhas” ou a transformação de campos antes destinados ao trabalho para a vida em campos de batalhas particulares e sanguinárias. Este era o clima que as mulheres tinham que se haver.
O reverendo Monroe morre deixando Ada só com uma fazenda que não sabia administrar. Dispensa os empregados e passa os dias escrevendo cartas a Inman suplicando que ele retorne para ela. As cartas revelam-se salvadoras e terapêuticas. Representavam a presença de alguém que a ouvia e que certamente ainda existia. Apesar das cartas “benignas” havia um galo “maligno”, percebido como um verdadeiro demônio a persegui-la. Com o aparecimento de Ruby que se tornará uma verdadeira família para Ada o demônio vai para a panela dando um bom caldo para os dias de frio e fome que enfrentavam.
Além do preenchimento de uma solidão atroz, Ruby trouxe a Ada um aprendizado valioso. Ada sentia, e talvez com muita razão, que seus conhecimentos não tinham utilidade alguma para a ocasião, não tinham nenhum efeito real: “– Eu sei fazer um arranjo de flores, mas não sei plantá-las!” Conhecia os nomes dos principais rios da Europa, mas não sabia os nomes dos córregos da região. E como bem lembrou Ruby: “Então você nunca entrelaçou suas pernas as do tal Inman?” Não, ela nunca havia conhecido um homem no sentido bíblico do termo, e esse era o momento decisivo na vida de Ada: aprender a enfrentar uma realidade deixando para trás uma vida de proteção, quando só era poupada e para a qual ela não queria voltar.
A briga com a loucura não se dava apenas quando com o ancinho se protegia do galo demoníaco. O desespero a fez aceitar uma espiada no poço de Sally através do espelho, quando viu Inman voltando por um caminho onde o branco da neve contrastava com o negro agourento de corvos. Na alucinação de Ada Inman caia.
O retorno do pai de Ruby, supostamente morto trará a ela a oportunidade de conhecer um homem por quem vai se apaixonar. Esse apaixonamento só acontece após ela ter perdoado intimamente o pai a quem amaldiçoou por tê-la abandonado. Após ter admitido ainda possuir um carinho de filha e que precisava afetivamente daquele pai é que pôde apropriar-se da sua feminilidade e dar espaço àquele que viria a ser o seu marido.
Após uma vida de espera para Ada e para nós, Inman chega a Cold Mountain. Está um trapo assustador. Enquanto ele dorme ocorre um diálogo interessante entre Ada e Ruby. Ada conta à amiga o quê viu no poço de Sally. Ele estava caindo, mas na verdade ele estava voltando para ela. Ruby sugere que ela não estava bem lembrada. Ada responde exaltada:
– Eu me lembro sim. Lembro cada detalhe.
– Eu tenho planos para a fazenda
– Ruby acrescenta.
– Eu sei – Ada imaginou que Ruby estava mudando de assunto.
– Eu também preciso vê-la perfeita. Em cada detalhe...
Após uma noite e um dia para o descanso necessário para Inman, ele e Ada se casam numa cerimônia íntima como tantas que devem ter acontecido durante as Guerras. Mas haverá uma outra despedida entre o casal com uma frase de Inman que comprova o projeto que o sustentou aqueles anos todos.
Mas e o beijo?
Como disse no título, neste filme inesquecível há beijos de despedida e de reencontro. Este último esperado com muito anseio pela protagonista e por nós. Não podemos esquecer que estamos em 1864 e o casal não pôde se jogar um nos braços do outro assim que se avistaram. Precisaram antes falar cada qual a sua vivência da distância, enfim. Ada sentia que seu coração havia congelado e Inman temia que seu mundo interno estava destruído, sem afeto algum. É uma bela conversa e com a ajuda de Ruby, sempre ela, o casal ganha uma cabana onde puderam ficar enfim juntos e a sós.
Elegi o beijo da relação sexual do casal não por isso, mas por ser o momento mais aguardado por eles e que temiam não terem conseguido preservar as condições necessárias, seja lá o que for isso, para que ele acontecesse. Creio que a espera demorada propicia a idealização da festa e o medo de se decepcionar com ela. Não decepcionou.
Todos nós passamos por longas e frias esperas invernais. Todos nós precisamos de projetos que dêem sustentabilidade a nossa existência. Não importa quão frias e longas sejam as esperas, sempre é possível acendermos uma fogueira, uma lareira e encontrarmos calor e boa companhia dentro de nós mesmos. E após as esperas e as guerras, como em Cold Mountain, o sol brilhará e dissipará as nuvens e os fantasmas aterradores.
Bom final de inverno e um abraço, quente, a todos.

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domingo, 30 de agosto de 2009
















Beijar Escondido –
Sinopses de Filmes Inesquecíveis com Beijos Inesquecíveis

Em busca de meus filmes inesquecíveis não podia deixar que este passasse em branco. Cary Grant e Deborah Kerr interpretam An affair to remember, história de Leo Mc Carey. O título para o Brasil ficou Tarde demais para esquecer. Quem não lembra dele? É realmente um filme para não esquecer.




Indicado para quatro Oscares em 1957 e ganhador do de melhor música, há 52 anos atrás. E isso é um bom início para esta sinopse. Se em 1953, em A um passo da eternidade, a própria Deborah Kerr foi protagonista com Burt Lancaster do primeiro beijo do cinema, parece que em 1957 os beijos ainda eram tidos como amorais e indiscretos. Neste filme não há beijos declarados, só escondidos ou quase beijos.




A história conta num primeiro plano sobre um Don Juan. Nicholas Ferrante (Grant) que viaja a Nova York num transatlântico para se casar com uma magnata americana. Na viagem conhece Terry McKay (Kerr), uma ex-cantora de boate que também está comprometida e se apaixonam, um pelo outro.




E num segundo plano, mas que é o primeiro, o filme também conta a história de Terry Mc Kay, uma moça que por não poder se encontrar com ela mesma não pode se encontrar com o homem.
E na primeira parte o roteiro nos coloca diante de situações engraçadas, quase um jogo de gato e rato. Ferrante foge do assédio dos outros passageiros e dos paparazzos de bordo. Quando ele conhece Mc Kay, ela encontra a cigarreira dele, o seu (dele) interesse é despertado e ele passa a segui-la. Ela aparentemente dando uma de difícil ou porque é comprometida ou porque, como ela mesma diz, está viajando sozinha, faz de tudo para evitá-lo. Entretanto, não é nada disso. É uma mulher que não pode se encontrar com o outro porque está sozinha, sozinha dela mesma. Este é o motivo de tantas resistências, dificuldade de encontrar o outro por não poder se encontrar. No final, e todos devem saber ao quê estou me referindo, será o ápice da dificuldade de encontro.




Numa das paradas que o navio faz num vilarejo francês, Nickie leva Terry para conhecer sua avó Janou. Este trecho deve ser o responsável pela indicação ao Oscar de melhor fotografia. É lindo. Janou vive num lugar feito para cultivar as boas lembranças. Terry diz que gostaria de viver ali o resto de seus dias, ao quê Janou responde:
Não querida. Aqui é um lugar para cultivarmos as lembranças felizes. Você é muito jovem, ainda tem que construí-las.
E na cena em que as duas tomam chá, a avó diz que teme que a vida possa apresentar a Nicolo uma conta alta demais para ele pagar.




Após esta breve visita o navio entra em alto-mar e logo chegará à Nova York e o casal admite que querem ficar juntos. Mas tudo isso não é explícito e sim comunicado através de um clima apaixonado, mas ela sente o tempo todo um conflito entre o amor e a paixão que sente e gosta do que está sentindo e o que ela acha que deveria sentir: manter-se fiel ao compromisso e ter o controle sobre o incontrolável.




Mas é um filme de 1957 e é cheio de preconceitos. A personagem Terry é cheia deles. A avó de Nickie tem um empregado, Marius, que tem sete filhas. Janou diz que como o presidente havia dito que a França precisava de mulheres ele havia feito sete. Enquanto as mulheres tomam chá, Ferrante vai à casa do empregado visitar a família. Quando volta diz: ― Tive uma conversa séria com a mulher do Marius. Ao quê ela retruca: ― Deveria ter tido uma conversa séria com ele. Nesta observação ela mostra um ranço machista e preconceituoso.




Quando no navio, às vésperas de desembarcarem ela dá um bilhete a ele marcando um encontro para dali a seis meses, se nada mudar para nenhum deles – ela pensou tudo isso sozinha! Onde seria o encontro? No último andar do Empire State Building, o lugar mais perto do céu em Nova York.




E assim foi. Em seis meses ambos desfizeram seus compromissos (inacreditável!). Ela voltou a cantar em boate e ele tentou uma carreira de pintor de telas. Quando chega a tal data, ele foi mais pontual. Ela foi a uma loja de roupas femininas onde comprava suas roupas quando estava com seu antigo namorado, comprar um baby-doll cor de rosa (mas era hora de fazer isso? É difícil ou não para ela pensar em se encontrar?). As vendedoras avisam o ex, Ken, que ela estava na loja. Tudo isso colabora para retardar a sua saída. Já eram cinco minutos para as cinco horas quando ela vai ao encontro de Ferrante. Ela desce ansiosa do táxi não permitindo que ele a leve até o final de seu caminho. Enquanto atravessava a larga avenida, olhava para a torre do Empire State e é atropelada. A conseqüência foi ela não conseguir mais andar. Seu ex-namorado é avisado e acompanha seu tratamento. Ele quer avisar Ferrante, mas ela não permite.




Na primeira ocasião em que ela pode sair vão a um espetáculo de balé. Ferrante também vai ao mesmo espetáculo com sua ex. Na saída Ferrante passa pelo casal, ainda sentados, esperando que todos saiam. Só dizem “alô” um para o outro. Ken insiste pedindo que o deixe chamá-lo. É muito bonito da parte dele. Ele consegue se por no lugar do outro. Ele aceita que não tem mais o desejo dela e não vê Ferrante como rival. Ela não permite. Mas que menina difícil. E na volta dentro do carro, Ken pergunta por que ela não permite que ele pague pelo seu tratamento. Ela responde com argumentos engenhosos que só um ingênuo não percebe o quanto está difícil para ela receber ajuda: ― Eu tenho o meu trabalho e o meu orçamento. Viram a autopunição e a auto suficiência? E ele diz: ― É revoltante ver que todo mundo está saindo e eu tenho que te lavar para casa. É a vida, etc. e tal. Se antes do acidente, em condições físicas normais, digamos assim, já lhe era difícil qualquer tipo de encontro e ela já pensava em se isolar, imagine esta nova condição em que há de se considerar algum grau de dependência. “Eu tenho meu trabalho e meu orçamento”, um argumento aparentemente objetivo, mas que no subjetivo comunica um desejo de auto-suficiência existente dentro dela, também muito antes do acidente, e que foi reforçada por sua atitude preconceituosa.




E no dia de Natal, ela estava sentada em seu sofá com as pernas estendidas e cobertas por uma manta. A cadeira de rodas, como no teatro, não estava à mostra. No exato momento em que a senhora que a ajuda estava saindo, Ferrante chega. Acontece então um diálogo bastante estranho. Ela não quer responder perguntas e ele faz um jogo inventando uma história em que ele não havia comparecido ao encontro marcado e ela sim. E nesse jogo em que consegue enredá-la, ele conta como foi a experiência para ele de esperá-la até a meia-noite, durante uma tempestade.




Antes de sair ele dá à ela o xale que Janou deixou para ela e vendo-a coberta com o xale conta que a pintou com ele orando à Santa. Diz que não podia trocá-lo por dinheiro, mas não podia guardá-lo com ele. Permitiu que o seu marchand o desse a uma mulher que gostou muito dele, mas não podia comprá-lo. Ela era... então a ficha caiu. Ele vai até a porta do quarto e entra, deparando-se com o quadro. E foi assim que a notícia foi dada a ele.




Quando ele conclui que era ela a mulher faz uma fisionomia de dor, fechando os olhos e jogando a cabeça para trás. Vai até ela entre lágrimas e sorrisos solidários. Ela diz: ― Não me olhe assim! Não olhe assim como? Era o olhar de um homem apaixonado. Ela, sim, estava sentindo pena de si própria e achava que todo mundo sentia o mesmo. Ambos choram muito e ela promete a ele, a ele?, que vai voltar a andar. Quem soube?




Mas e o beijo? O beijo mais emocionante deste filme sem beijos explícitos acontece na primeira noite após a visita à Janou. Eles estão passeando pelo navio deserto, todos já estavam em seus aposentos, quando descendo uma escada ela pára no meio dela e o chama para retornar e beijá-la. E esse foi o beijo premiado desse filme. Isto aconteceu em 1957. Aconteceram muitos depois desse.
Nesta série ainda haverá muitos. Paciência.



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sábado, 22 de agosto de 2009

FRASES DE CLARICE LISPECTOR



Frases de Clarice Lispector


Peguei mania de anotar frases que me interessam nos livros que leio. Eles ainda não estão com anotações suficientes, como eu gosto quando mergulho mesmo na leitura.

Depois descobri que Tolstoi tinha esse hábito. Machado de Assis também. Acho que estou num bom caminho...

Deixo aqui algumas frases de Clarice Lispector. Estou vendo esta autora com um outro olhar, acho que mais abrangente e mais complacente. Para reconhecer o seu valor como uma autora de peso, da nossa língua portuguesa eu não preciso idealizá-la.

Vamos a algumas frases:

Então a vingança dos fracos me ocorreu… Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de alguém e depois contar os segredos.

Uau! Vingança dos fracos! Ela era encontrada por muitos pensamentos que buscam pensadores.

É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é.

Esta, na minha humilde opinião, é a frase que mais reflete a alma de Clarice. Acho que lerei todos os seus livros buscando uma fala que supere esta em clareza e verdade.

Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes, eu me acho de amor inocente.

Alguém que podia, nos momentos que estava mais serena, que na minha leitura eram poucos, se ver sem escrúpulos. Muito bom.

Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.

As pessoas adeptas de alguma religião odiariam esta frase, mas como ela era contundente. Tinha momentos de visão tão precisa. Será que alguém já pôde pensar que ama a um Deus só porque não se gosta? Mas que vida maior ela vivia sonhando, procurando? Outra pergunta para se ter na busca literária/psicanalítica.



As frases acima foram tiradas do conto Perdoando Deus.


Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.
Lindo!


Retirada do conto Tentação.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

QUANDO TUDO COMEÇOU ou quase tudo...

Falo tanto em Literatura, Literatura e Psicanálise, Psicanálise e Literatura e vou estrear este espaço falando em cinema e em beijos. Para não perder o vício falo em Freud também.

Aqui vai a primeira das sinopses da série: BEIJAR - Sinopses de filmes inesquecíveis com beijos inesquecíveis. Esta série foi concebida para falar de um único beijo, aquele que acho o beijo mais bonito de todos os filmes que já assisti. Mas resolvi fazer um suspense e virou uma série que me parece infinda. Ela já foi publicada no site do escritor: http://gazetainsonia.com/ , a primeira e o nome desta sinopse é o nome da série. Vamos a ela...

BEIJAR - Sinopses de filmes inesquecíveis com beijos inesquecíveis.

Outro dia, a Edna Lopes do Nascimento, uma nova amiga escritora do Recanto das Letras me anunciou que havia acontecido o dia do beijo, como se, lembrava sabiamente ela, beijo precisasse de dia marcado. Concordando com a sua observação acendeu-me a lampadinha do Professor Pardal que há muito não me iluminava. Como eu nunca havia pensado em escrever uma crônica sobre o beijar? Fechado. Este seria o meu próximo tema e fiquei a espera dos pensamentos que viriam a minha procura.
Passou um bom tempo e nenhum veio bater à porta do meu aparelho para pensar. Minha analista não concorda quando digo que estou em crise de criatividade, mas é ela quem é generosa.
Bem, até que enfim, certa manhã ela, a crônica não a analista, me aparece praticamente pronta a iluminar meu dia. Não se iludam, eu teria muito trabalho pela frente. Não é só inspiração, não.
Desculpem pela minha falta de originalidade, mas não consigo conceber melhor forma de falar em beijar do que descrever e classificar os meus beijos favoritos… do cinema.
E para não fugir muito do quê encontrei em sites de pesquisa (a originalidade se marcar presença será de outra maneira) apresentarei aqui o meu ranking que não seguirá uma ordem de preferência, pois criatividade é avessa aos ditames da razão.
Visitando páginas de beijos inesquecíveis do cinema me percebi parada, com uma ruga de interrogação diante de uma foto. Era Sean Connery beijando uma morena e a legenda dizia Jeames Bond, o beijoqueiro. Aquele homem magro e sem barba me diz pouco do Sean de quem procurei assistir a todos os filmes, inclusive o horroroso A Liga Extraordinária, acreditem. E, viajando diante do 007 pioneiro lembrei do beijo Conneryano que mais me atrai.
Lancelot – O Primeiro Cavaleiro com Sean Connery como Rei Arthur, Julia Ormond como Guinevere, Richard Gere como Lancelot e Ben Cross como Malagant tem beijos para todos os gostos.
É interessante notar que neste filme aparece aquela teoria freudiana da divisão das correntes amorosas: a corrente da paixão representada por Lancelot e a corrente da ternura representada por Arthur. Esta divisão das correntes, uma libido que precisa de dois objetos, a do desejo sexual que necessita de alguém que lhe sugira uma prostituta, alguém que se encontra constantemente em perigo e que precisa ser salva, e a do amor terno que lembra o amor dirigido à mãe e por isso não “combina” com desejo sexual acontece, segundo Freud, com homens, alguns homens.
Lancelot insiste em amar daquela maneira “desenfreada” tal qual é a sua vida de aventura. Apela à Guinevere que esqueça que é a princesa de um povo que corre perigo, sua identidade, que seu castelo está sendo salteado por Malagant, o rei mau. Ora Lancelot, que covardia. O quê este forasteiro está pedindo é fidelidade absoluta. Ele necessita tanto salvar a mulher amada porque sofre com uma fixação à figura materna. Perseguiu a mulher não por outro motivo, e sim porque sabia que ela já estava comprometida. O fato dela “pertencer” a um outro homem, e ele precisar arrebatá-la dele, intensifica o seu desejo por ela. Quando descobre que é a futura rainha, futura esposa de Arthur e será presenteada com uma égua selvagem a paixão ganha mais força.
Quando Lancelot luta com Malagant, numa batalha final sublimada, ele também está tentando salvar a mãe Camelot do pai mau. Ele conquista definitivamente a potência quando pode vencer a inércia e abrir as portas da igreja onde está preso o povo de Leonesse e depois pode chorar e decidir ir embora, ou seja, renunciar a mãe e deixá-la, desejando-lhe “o melhor”, com o pai.
Arthur sente, e chega a dizer à Guinevere, que quer viver com a mulher que se casar um momento “de graça”, o instante em que sentirá um calor semelhante a um raio de sol vindo dos olhos da mulher amada e escolhida a iluminar e aquecer o seu rosto, algo que é muito fugaz, dizem os sábios. Arthur sabe que falta uma parte importante na sua maneira de amar e que há um ponto de integração destas duas correntes. Sabe e quer que aconteça na sua relação com a Rainha escolhida, o amor, o desejo e o prazer do orgasmo. Ele diz: aceito virtudes e defeitos. Eu não amo partes das pessoas. Ele se encontra muito mais amadurecido que Lancelot. Sente esperança de uma integração maior.
E quanto à Guinevere, a mulher amada e desejada por dois homens? Freud fala pouco a respeito das mulheres. Ele confessou que a alma feminina compunha um verdadeiro enigma para ele. Deixemos então que a arte nos diga alguma coisa.
Guinevere diz a Arthur quando este lhe pede para que case com o rei, mas ame o homem que só conhece um modo de amar e é com o corpo, com o coração e com a alma. E quando é inquirida sobre o flagrante em que foi pega, beijando Lancelot, diz que o quê deu a ele foi apenas “um momento” e que é a sua (dela) vontade que a faz continuar vivendo e a sua vontade diz que quer ficar ao lado dele. “ – Quanta inocência! Mais inocência eu enlouqueço”. Ele tem uma certa razão em dizer isso. Naquele momento ele não era capaz de conceber a integração que ela já havia alcançado.
No final da história é o cavaleiro errante e aventureiro quem fica com a dama e governando Camelot, com as bênçãos de Arthur. Na minha humilde opinião, isso só acontece porque Arthur morre. Eu creio que Guinevere escolheria Arthur. Digo isso não só levada pela identificação que não estou livre, mas o perfil da personagem, de uma rainha que ama o seu povo e que tem dentro de si um amor maternal, escolheria Arthur.
E na cena final, quando vão cremar o corpo do Rei, se você notar bem, Lancelot ao olhar o corpo sendo incinerado no meio do mar tem, não consigo pensar numa outra forma de dizer, uma cara de bunda. Ele não queria a responsabilidade de governar a vida, dele e de outras pessoas que precisavam ainda de uma figura paterna protetora. Eu não tenho dúvida. Quem ia assumir o comando, não só de Camelot e de Leonesse, mas da situação era Guinevere. Ela já estava no governo do seu país depois que seu pai morreu, sempre aconselhada pelo velho e sábio Oswald. E porque pode se aconselhar, porque sabe que tem muito a aprender e que o outro tem algo valioso a lhe passar é sábia.
Mas e o beijo? Como escrevi acima há beijos para todos os gostos. Beijo de paixão, beijo de ternura. O beijo de minha preferência e foi ele que insistiu na minha lembrança acontece quando Guinevere chega a Camelot após ter sido seqüestrada por Malagant e correu risco de morte, seminua e enrolada num lençol e Arthur se encontra no altar orando (ele ficou orando enquanto outros saíram para salvá-la, ora Arthur!). Ela corre para os seus braços e o beijo acontece. Um beijo tão completo, de desejo, de amor, de saudades, de alívio, de gratidão pela volta, de votos de amor eterno, de convicção de que um quer estar e ficar com o outro, enfim, se você agüentar tanta inocência, assista.