terça-feira, 1 de setembro de 2009




– BEIJAR NA DESPEDIDA, BEIJAR NO REENCONTRO –
Sinopses de filmes inesquecíveis, com beijos inesquecíveis.

ROSANA DE ALMEIDA
Especial para o Site do Escritor
www.gazetainsonia.com

Dentro do clima invernal que temos vivido ultimamente, escolhi o filme Cold Mountain para resenhar, com beijos quentes e cenas tórridas, não aconselháveis a menores de 16 anos. Com Jude Law (Inman), Nicole Kidman (Ada Monroe) e a formidável Renée Zellweger (Ruby) ganhadora do Oscar de melhor atriz coadjuvante, uma das sete indicações ao Oscar que o filme recebeu em 2003. Direção de Anthony Minghela.
A história se passa num vilarejo ao sul da Carolina do Norte em 1864, durante a Guerra Civil. As lembranças de Inman, ferido durante a batalha, nos contam os acontecimentos de três anos atrás quando Ada Monroe chegou a Cold Mountain com o pai, um reverendo que escolheu ser transferido para o sul por problemas de saúde.
O flerte entre Ada e Inman começa quando ela e o pai visitam a construção da capela. Inman está construindo o telhado quando ela chega. Inicialmente como narradora, se apresenta como uma jovem inexperiente, aliviada por ter migrado do norte, uma região de escravos e espartilhos. Mas corajosa, ela manterá esta coragem até o fim, leva uma bandeja de refresco aos homens que estão trabalhando na capela, especificamente a Inman, o jovem quem a amiga Sally diz ansioso por conhecê-la e também aquele que Sally quer que limpe o seu campo. É uma cena cheia de sol e de uma paquera inquietante, típica de praças com coreto, em cidades do interior. O refresco para o calor dos olhares vem da sidra em fartura.
Outra cena decisiva para o enredo é a do sarau na casa do reverendo como forma de agradecimento aos moradores pela construção da capela. É nesta cena que ficamos sabendo que Inman se alistou e que Ada irá esperar por ele. Ada sugere ironicamente que Inman tire um retrato, uma ferrotípia com o mosquete e a coragem aparentes. Nesta também nos apresentam Teague, o neto do antigo proprietário de grande parte das terras da região e quem se incubirá pela caça aos desertores.
Muita gente protesta quando digo, e sei que muitas mensagens descontentes virão, que nos apaixonamos quando queremos e/ou precisamos nos apaixonar. E parece não haver ocasião mais propícia ao apaixonamento do que épocas de guerra. Ada precisava ter algo em mente que a distraísse das dores típicas de épocas de guerra, mesmo que acrescentasse uma outra, até maior.
Quando Ada vai se despedir de Inman dá a ele para que leve consigo um livro e uma ferrotípia. Nela não está sorrindo. “– Não sei manter um sorriso”. ela diz. Ela sentia dúvidas quanto a sua possibilidade de preservar seus valores e suas posses. Creio que se apaixonar era uma forma dela se sentir viva e com esperança, esperança de conseguir manter algo valioso e bom. Inman precisava igualmente se apaixonar. Precisava ter um vínculo forte que o mantivesse vivo no meio do caos da batalha. Ada precisava ter alguém por quem esperar. Inman precisava ter alguém para quem voltar. Para ambos era uma questão vital.
No contexto de Cold Mountain aparece uma vicissitude da espécie humana. Surpreendentemente, da mesma forma como precisam se apaixonar, precisam guerrear. E assim como não podemos saber todos os motivos inconscientes que levam uma pessoa a se apaixonar por outra, não é possível conhecer todos os motivos inconscientes implicados na necessidade da guerra. Uma forma de extravasar o ódio? Não creio ser esta a razão maior. Extravasar a loucura que corrói lentamente e torna-se insuportável em alguns períodos? Difícil precisar os motivos. Para os homens de Cold Mountain parecia haver uma questão de identidade, um sentimento de estarem “fora do mapa”. Quando foram convocados para a guerra civil passaram a se sentir reconhecidamente existindo e de valor. “ – Agora temos a nossa guerra!”. “ – Você já tem a sua guerra!”. Manifesta-se nestas frases a inveja que estava sendo amargada e uma ponta da loucura implícita.
A forma como estes homens se destacaram durante as batalhas manifesta a premência de se provarem seu valor e coragem, mas para Inman a guerra se tornava cada vez mais sem sentido. Sua razão maior era voltar a Cold Mountain e para um amor que ele mal conheceu.
Mas as mulheres que ficaram não tinham que lidar apenas com o abandono e a escassez da época. Havia a loucura dos que, por algum motivo, não foram e que para não se sentirem impotentes passam a abusar de um poder, de uma autoridade tirana, sádica e assassina. Difícil concluir o quê é pior: partir e extravasar a loucura em “campos destinados a batalhas” ou a transformação de campos antes destinados ao trabalho para a vida em campos de batalhas particulares e sanguinárias. Este era o clima que as mulheres tinham que se haver.
O reverendo Monroe morre deixando Ada só com uma fazenda que não sabia administrar. Dispensa os empregados e passa os dias escrevendo cartas a Inman suplicando que ele retorne para ela. As cartas revelam-se salvadoras e terapêuticas. Representavam a presença de alguém que a ouvia e que certamente ainda existia. Apesar das cartas “benignas” havia um galo “maligno”, percebido como um verdadeiro demônio a persegui-la. Com o aparecimento de Ruby que se tornará uma verdadeira família para Ada o demônio vai para a panela dando um bom caldo para os dias de frio e fome que enfrentavam.
Além do preenchimento de uma solidão atroz, Ruby trouxe a Ada um aprendizado valioso. Ada sentia, e talvez com muita razão, que seus conhecimentos não tinham utilidade alguma para a ocasião, não tinham nenhum efeito real: “– Eu sei fazer um arranjo de flores, mas não sei plantá-las!” Conhecia os nomes dos principais rios da Europa, mas não sabia os nomes dos córregos da região. E como bem lembrou Ruby: “Então você nunca entrelaçou suas pernas as do tal Inman?” Não, ela nunca havia conhecido um homem no sentido bíblico do termo, e esse era o momento decisivo na vida de Ada: aprender a enfrentar uma realidade deixando para trás uma vida de proteção, quando só era poupada e para a qual ela não queria voltar.
A briga com a loucura não se dava apenas quando com o ancinho se protegia do galo demoníaco. O desespero a fez aceitar uma espiada no poço de Sally através do espelho, quando viu Inman voltando por um caminho onde o branco da neve contrastava com o negro agourento de corvos. Na alucinação de Ada Inman caia.
O retorno do pai de Ruby, supostamente morto trará a ela a oportunidade de conhecer um homem por quem vai se apaixonar. Esse apaixonamento só acontece após ela ter perdoado intimamente o pai a quem amaldiçoou por tê-la abandonado. Após ter admitido ainda possuir um carinho de filha e que precisava afetivamente daquele pai é que pôde apropriar-se da sua feminilidade e dar espaço àquele que viria a ser o seu marido.
Após uma vida de espera para Ada e para nós, Inman chega a Cold Mountain. Está um trapo assustador. Enquanto ele dorme ocorre um diálogo interessante entre Ada e Ruby. Ada conta à amiga o quê viu no poço de Sally. Ele estava caindo, mas na verdade ele estava voltando para ela. Ruby sugere que ela não estava bem lembrada. Ada responde exaltada:
– Eu me lembro sim. Lembro cada detalhe.
– Eu tenho planos para a fazenda
– Ruby acrescenta.
– Eu sei – Ada imaginou que Ruby estava mudando de assunto.
– Eu também preciso vê-la perfeita. Em cada detalhe...
Após uma noite e um dia para o descanso necessário para Inman, ele e Ada se casam numa cerimônia íntima como tantas que devem ter acontecido durante as Guerras. Mas haverá uma outra despedida entre o casal com uma frase de Inman que comprova o projeto que o sustentou aqueles anos todos.
Mas e o beijo?
Como disse no título, neste filme inesquecível há beijos de despedida e de reencontro. Este último esperado com muito anseio pela protagonista e por nós. Não podemos esquecer que estamos em 1864 e o casal não pôde se jogar um nos braços do outro assim que se avistaram. Precisaram antes falar cada qual a sua vivência da distância, enfim. Ada sentia que seu coração havia congelado e Inman temia que seu mundo interno estava destruído, sem afeto algum. É uma bela conversa e com a ajuda de Ruby, sempre ela, o casal ganha uma cabana onde puderam ficar enfim juntos e a sós.
Elegi o beijo da relação sexual do casal não por isso, mas por ser o momento mais aguardado por eles e que temiam não terem conseguido preservar as condições necessárias, seja lá o que for isso, para que ele acontecesse. Creio que a espera demorada propicia a idealização da festa e o medo de se decepcionar com ela. Não decepcionou.
Todos nós passamos por longas e frias esperas invernais. Todos nós precisamos de projetos que dêem sustentabilidade a nossa existência. Não importa quão frias e longas sejam as esperas, sempre é possível acendermos uma fogueira, uma lareira e encontrarmos calor e boa companhia dentro de nós mesmos. E após as esperas e as guerras, como em Cold Mountain, o sol brilhará e dissipará as nuvens e os fantasmas aterradores.
Bom final de inverno e um abraço, quente, a todos.

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